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Arte e Cultura e a Psicanálise

Atualizado: 18 de jul. de 2023

Entrelaçar áreas do conhecimento para aprofundar nossas práticas



“Eu sou um outro”

Arthur Rimbaud

Um problema histórico: a louca da Casa


Na formação de professores e artistas, muitas vezes, no convívio com alunos, artistas e professores nos deparamos com questões que, ao longo desses trinta anos de estudos e prática, nos tem sido colocadas. Sobre a arte como proposta terapêutica, sobre os artistas que temem perder sua “criatividade” se passarem por análise e que é necessário “enlouquecer” para criar , sobre o artista ser um pouco louco e a loucura, muitas vezes, romantizada. Perguntas que nos servirão de bússola na escrita dessa reflexão, no entrelaçar dos caminhos em Arte, Cultura e Psicanálise

Portanto, não se trata como poderíamos supor ou foi feito no passado de analisarmos obras de Arte como foi feito por Freud na Gradiva de Jansen e na análise das obras de Leonardo Da Vinci. Pensar as obras da Arte e da Cultura hoje a luz da Psicanálise pode significar habituar-se a se aprofundar na leitura simbólica.

O entrelaçamento dos elementos clássicos da psicanálise nos dá instrumentos e ferramentas pedagógicas que nos auxiliam tanto na compreensão do ser humano quanto na proposição da formação. A Arte e a Cultura são simbólicas, elaboram o real, trazendo para o imaginário em elaboração simbólica, processos de criação, de fruição na interpretação dos bens simbólicos através do sensível, da apreensão pela sensibilidade operação feita pela imaginação como encontramos em Estruturas Antropológicas do Imaginário de Gilbert Durand, é também nessa obra que o autor desenvolve um percurso histórico na Imaginação e de como os poetas e aqueles que fazem uso dessa faculdade humana descrita pelos franceses como a Louca da Casa.

Recentemente, em 2019, participando da Semana de Formação para artistas educadores do Programa Vocacional, Programa da Secretaria de Cultura, na mesa de debates sobre saúde mental me deparei com os relatos de muitos artistas, orientadores de diferentes linguagens artísticas que em seus encontros tem como participantes pessoas com distúrbios mentais, o Programa tem desenvolvido algumas parcerias com programas de atendimento à esse segmento da população.

Se sentindo desamparados, em alguns casos, muitos se perguntam se estariam aptos a “orientar” como mestres ignorantes os socialmente conhecidos como “loucos”. Alguns relatos repassam conceitos de contextualização artística e cultural: na periferia em uma apresentação de performance para os colegas de dança, uma artista vocacionada se cortou com gilete chocando os colegas. O orientador pergunta, é normal? E rebatemos a pergunta, mas o que é normalidade?

Criada no século XX, por Sigmund Freud, médico austríaco de origem hebraica a Psicanálise passou por um longo período de rejeição e desconfiança até ser aceita como ciência das humanidades do pensamento humano. A elaboração dos símbolos, o desenvolvimento infantil, as imagens, as hermenêuticas simbólicas, a análise do mito, a expressão como possibilidade terapêutica são alguns dos inúmeros legados da psicanálise. Embora ainda passe e tenha passado por constantes momentos de desconfiança e considerada como pseudociência .

Sua contribuição, desde os precursores e de seus seguidores, ao incluir as emoções como integrante do comportamento equilibrado do ser humano e desenvolver um tratamento a partir do diálogo, da escuta e da palavra é inquestionável. Rompendo com uma visão cartesiana e mecanicista do ser humano que junto do capitalismo adoecia muita gente.

Juntos, S. Freud e J. Breur trataram muitos casos de mulheres, o mais conhecido deles o de Anna O, poderíamos citar outras, mas usaremos esse exemplo para refletirmos sobre normalidade. Em um período em que as mulheres eram extremamente oprimidas, Bertha Pappenheim, nome verdadeiro de Anna O, desenvolveu vários sintomas chegando a ficar sem andar, ela foi tratada por J. Breur e seu caso serviu de estudos para Freud. Ela mesma dizia da “cura pela fala” e se tornou uma ativa defensora dos direitos das mulheres, seu processo terapêutico de cura foi que conseguisse transformar a causa de seu sofrimento em mote de vida, numa descoberta de si mesma como sujeito atuante num mundo de transformações para as mulheres, especialmente as judias. A normalidade previa o casamento e os filhos, não era considerado normal que mulheres batalhassem em prol de uma causa, que estudassem. O recalque de suas potencialidades a adoeceram, em seu “processo de cura” Bertha foi jornalista, tradutora e presidente da Liga de Defesa dos Direitos das Mulheres no início do século XX.

Em muitas de suas obras S. Freud desenvolve uma base teórica sobre para a compreensão do ser humano, da ética, da moralidade, da capacidade de maldade e da cultura humana. É importante contextualizar que S.Freud era judeu e viveu o período entre as duas grandes guerras mundiais, teve seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, dentre outros, como Thomas Mann, queimados em praça pública pelo III Reich na que ficou conhecida como A Grande Queima. Por ser judeu deixou Viena, na anexação da Aústria à Alemanha. Idoso e doente fez a viagem graças ao auxílio de alunos e pacientes, vindo a morrer exilado na Inglaterra aos 83 anos. Alguns dos princípios clássicos dos pressupostos elaborados por Freud são o de inconsciente, de ego, de id e superego, de recalque, projeção. A associação de ideias, o ato falho, a transferência.

Legado

A elaboração dos símbolos, o desenvolvimento infantil, as imagens, a expressão com possibilidade terapêutica são alguns legados da psicanálise. Embora passe e tenha passado por constantes momentos de desconfiança e considerada como pseudociência .

A Arte é a comunicação simbólica de inconsciente para inconsciente. Pensadores da cultura em relação ao corpo, da História da Loucura de Michel Foucault, das hermenêuticas simbólicas como Paul Ricoer e das estruturas do Imaginário como Gilbert Durand, irão refletir sobre a repressão dos corpos, os castigos que trazem limitações e sofrimentos emocionais, a formação das imagens a partir do corpo, suas representações e possíveis leituras e interpretações dos símbolos.



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